A Lenda do Maracanazo: Uruguai, O Quarto Campeão Mundial e o Grito da América (1950)
Após o longo e sombrio hiato causado pela Segunda Guerra Mundial, a Copa do Mundo retornou em 1950, sediada pelo Brasil. O evento foi planejado para ser uma celebração da paz e a consagração do futebol brasileiro, mas terminou em luto e silêncio. O Uruguai entrou para a história como o quarto campeão mundial de futebol, conquistando seu segundo título e protagonizando o maior choque da história do esporte: o “Maracanazo”.
A vitória uruguaia em pleno Maracanã lotado, contra todas as expectativas, cimentou a Celeste como um símbolo de garra e resiliência e transformou o jogo final em uma lenda de superação.
O Contexto de 1950: A Copa da Retomada
A Copa do Mundo de 1950 foi a primeira realizada após a guerra, e o Brasil se apresentou como o anfitrião ideal, construindo o maior estádio do mundo na época: o Maracanã. A competição teve um formato atípico, com uma Fase Final em quadrangular (um grupo de quatro equipes), em vez de semifinais e final.
O Uruguai chegou ao torneio com a pressão de tentar reviver a glória de 1930, mas vinha sendo ofuscado pelo futebol ofensivo e avassalador do Brasil.
A Trajetória Curta e Direta da Celeste
O Uruguai foi sorteado no Grupo 4, que foi reduzido a apenas dois times devido à desistência de outras seleções (como França e Índia). Isso garantiu à Celeste um caminho incrivelmente curto para a Fase Final.
1. Fase de Grupos: Um Jogo de Goleada
| Data | Confronto | Placar | Marcadores do Uruguai |
| 02/07/1950 | Uruguai x Bolívia | 8 – 0 | Míguez (3), Vidal (2), Schiaffino, Pérez, Ghiggia |
Jogo Único: A vitória por 8 a 0 sobre a Bolívia, em Belo Horizonte, foi o único jogo do Uruguai na fase inicial. Esse resultado bastou para garantir a primeira colocação e a vaga no Quadrangular Final.
2. Quadrangular Final: A Construção do Drama
O Quadrangular Final reuniu Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia. O Brasil chegou ao último jogo contra o Uruguai como o franco favorito, precisando apenas de um empate para ser campeão.
| Data | Confronto | Placar | Destaque Uruguaio |
| 09/07/1950 | Uruguai x Espanha | 2 – 2 | Empate suado, mantendo as chances. |
| 13/07/1950 | Uruguai x Suécia | 3 – 2 | Vitória dramática, mantendo o time vivo. |
A Seleção Brasileira, por outro lado, havia aplicado duas goleadas espetaculares (7 a 1 na Suécia e 6 a 1 na Espanha), e a imprensa brasileira já tratava o time como campeão antes do apito inicial.
O Maracanazo: A Grande Final Inesperada
Em 16 de julho de 1950, o Maracanã estava lotado com cerca de 174 mil pessoas (algumas estimativas falam em 200 mil), prontas para a coroação brasileira.
- O Gol de Friaca: O Brasil cumpriu o roteiro, abrindo o placar logo no início do segundo tempo com Friaca. O estádio explodiu em euforia, e o título parecia garantido.
- O Capitão Inquebrável: O capitão uruguaio, Obdulio Varela, protagonizou o momento mais importante da história da partida. Após o gol brasileiro, Varela pegou a bola, caminhou lentamente até o árbitro e iniciou uma discussão acalorada. Seu objetivo era claro: “esfriar” o jogo e quebrar o ritmo alucinante da torcida brasileira. O gesto deu tempo para que seus companheiros se acalmassem e recebessem instruções do treinador.
- A Virada Épica: Aos 21 minutos do segundo tempo, Juan Alberto Schiaffino empatou o jogo, mantendo a tensão. O empate ainda dava o título ao Brasil. No entanto, aos 34 minutos, Alcides Ghiggia avançou pela direita, e em vez de cruzar, finalizou no canto de Barbosa. Gol do Uruguai: 2 a 1. O estádio silenciou em um choque inacreditável.
O placar final de 2 a 1 garantiu o segundo título mundial do Uruguai, transformando a vitória em um mito, o Maracanazo, e eternizando a Celeste como o quarto campeão mundial de futebol.
Curiosidades do Maracanazo
- O Discurso de Varela: Antes do jogo, Varela disse a seus companheiros: “Ninguém falava do Uruguai. Se ganharmos, será a glória, se perdermos, não acontece nada. Deixem que eles pensem que são campeões!”
- Sem Cerimônia: A FIFA não tinha um plano de contingência para a derrota do Brasil. A Taça Jules Rimet foi entregue ao capitão Obdulio Varela pelo presidente da FIFA, Jules Rimet, sem discursos e em meio à confusão.
- O Trauma de Barbosa: O goleiro brasileiro Barbosa foi injustamente responsabilizado pela derrota e carregou o fardo do Maracanazo por toda a vida, simbolizando o profundo trauma nacional.
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